Ébrio que estava quase não sabia o que estava fazendo. Embriagado e sem limites foi fazendo o retorno no lugar que não devia e não notou o carro vindo na direção oposta, e como teria visto, se não via nem o que acontecia logo à sua frente?
O resultado não poderia ser outro. Ambos os automóveis chocaram-se um de frente com o outro. Quase um fim. O cinto colocado pela insistência da voz da namorada na sua cabeça talvez tenha evitado o pior. Na verdade, evitou o fim.
Saiu do carro pedindo desculpas a tudo e todos, como se houvesse uma horda de fazendeiros com ancinhos e tochas, loucos pelo seu sangue e sua carne. Mas, não, eram apenas outras pessoas mais assustadas, não com o acidente, mas com a situação daquele que fez o retorno de modo errado.
A cerveja ainda fazia seu efeito e ninguém sabia o que ele pensava, queria morrer ali mesmo, pelo tamanho da vergonha que sentia de todos. Os que estavam e os que não estavam lá. Pegou o telefone celular e desandou a ligar para todos da lista, quem fosse atendendo ia chamando.
Àquela que o fez, inconscientemente, colocar o cinto, apenas uma mensagem tímida e que em nada falava da gravidade que o sinistro poderia ter tomado.
Guincho, polícia, choro.
Não aguentava mais a situação e só queria dormir, talvez fosse apenas um sonho ruim, daqueles que na hora que a coisa vai acontecer você acorda num pulo que quase quebra a cama. Não era. Era tudo verdade. Tão verdade que seu braço e sua cabeça doíam.
O pranto tomou conta de todo o seu ser. O que ele havia feito? Que fim levaria sua vida? Qual seria o fim da vida dos outros?
Não saiu de casa no outro dia. Nem atendeu o telefonema daqueles que podiam de certa forma ajudar. Ou apenas daqueles que queriam saber como estava, se precisava de algo.
Só queria morrer. Só pensava em morrer.
Suicídio.
Mas seria algo muito egoísta. Deixar que os outros sofressem por algo que não tinham culpa. Aliás, sofrer por causa dos inúmeros conselhos que recebia dia após dia, dos conselhos sinceros daquela que o amava (só pode ser usado no passado esse verbo, eu mesmo duvido que ela ainda queira alguma coisa com ele). “Pega um táxi”, “Limite”, “Não vai dirigir assim”.
Mas se sentia o Superman, e nem mesmo gosta de ler essas historias em quadrinhos para criança. Melhor, sentia-se o próprio Constantine.
A coisa ainda não andou direito. Ainda sente vergonha da vida que leva. Até certo ponto parecia ser ciente de suas atitudes, parecia ter se transformado em alguém realmente sério e que não vive uma vida de mentiras.
O pior de tudo, pensa ele, é essa sensação de impotência e de solidão que permeia a cabeça e o coração, quando você vê que amigos, de fato, poucos temos.
Não consegue andar de cabeça erguida. Parece ainda estar bêbado desde a batida. Bêbado de sensações ruins, de sentimentos tristes, bêbado de tanto tomar as lágrimas que descem dos seus olhos constantemente.
Não consegue dormir, pode ser que ele acorde no meio da madrugada com a presença de que poderia não estar mais entre os vivos. Assim como acordou ontem, com a figura da mulher gorda e pelada que vinha em sua direção com os olhos vermelhos e esbravejando impropérios e querendo lhe dar um soco.
Foi quase um fim. Agora, só resta o recomeço.













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