De Sócrates a Doutor: um homem, um cidadão, um jogador de futebol e um lutador

6 dez

Eis aqui de novo para falar de futebol. Na verdade, não é bem “do” futebol que trata este post, mas de uma figura, de uma pessoa, um sujeito que fez sua história dentro do futebol e da história do próprio Brasil.

O post que aqui se apresenta é trambém trata sobre a manipulação midiática, principalmente da detentora dos direitos televisivos do futebol nacional.

O que se operou com a morte de Sócrates foi um discurso extremamente manipulador e que cobriu com os versos da moralidade imposta um discurso intenso e desvirtuante de toda a vida de um dos maiores jogadores que já praticou o esporte bretão. MAIOR QUE ZICO! (Podem apedrejar).

Primeiro falemos do jogador, do calcanhar invisível. Sócrates, como um homem letrado não apenas na sua ciência, mas calcado em ários estudos por outros campos que não o especializaram e, sim, expandiram sua visão de ver o mundo, percebeu que o mundo do futebol nada mais era do que o mundo do trabalho especializado, ou seja, determinada habilidade pronta para ser utilizada pelos corpos.

Assim, precisou se especializar, precisou galgar seu espaço no campo de jogo. Antiatleta, como autointitulava-se, não tinha o porte físico padronizado para a prática do futebol, desenvolveu então seu passe cego de calcanhar, desenvolveu uma marca que seria seu estereótipo, uma atitude que o colocou em pé de celebridade esportiva. Assim como Pelé e Garrinha desenvolveram os dribles, Júnior e Neto desenvolveram sua habilidade em cobranças de faltas e assim como Dinamite e Romário desenvolveram a arte de meter a bola para dentro do gol.

Sócrates foi o fundador da Democracia Corinthiana, época aclamada pelos meios de comunicação como a liberdade do jogador de futebol em um clube. Na verdade, (e aqui começamos a próxima abordagem do post) o que não se fala é que esta tal Democracia  Corinthiana, partiu de um grupo de jogadores, liderados pelo Doutor, para uma gestão democrática do futebol (ou de um clube de futebol).

Aqui um adendo: chama-se Sócrates de Doutor, sob o argumento de que ele era formado em medicina, mas vários de seus confrades confirmam que era muito mais por ser alguém intelectual, engajado em causas de movimentos de mudança, que culminou na Democracia Corinthiana. Formas novas de gestão que podem ser absorvidas pela Leitura do livro “Democracia Corinthiana: a utopia em jogo”, de autoria do próprio Sócrates em conjunto com Ricardo Gozzi.

A década de 80 é uma época de abertura política e a Democracia vem a ser uma nova forma de desenvolvimento político dentro de uma instituição, ao que parece, feita para emburrecer a audiência. Não é outra a sensação que passa, quando o mesmo Corinthians e corinthianos, afirmaram à época da controversa injeção de capital no time por Kia Joorabchian, que “não importasse de onde venha o dinheiro, o importante seria o Corinthians ganhar títulos”.

Sócrates cria uma nova forma de gestão futebolística, com participação dos jogadores nas deliberações de contratações e outros assuntos de cunho administrativo, tudo por meio do voto. Ora, autogestão pelo corpo de trabalhadores, pelo proletário revestido pelo véu da beleza atlética e monetária.

O que a mídia impões, neste caso, é que existiu uma forma de controle do clube pelos jogadores. Coloca a bela forma de gestão do clube, mas que hoje não seria necessária porque existe uma tal corrupção que esta se encontra naturalizada pelo indivíduo, como se todo sujeito fosse corrupto por natureza.

Sócrates ao marcar um gol, celebrava com o punho erguido e cerrado, símbolo dos movimentos sociais ditos de esquerda, ao que a mídia apenas chamava de uma forma “sóbria” de comemoração. Sóbria, bem diferente a ebriedade comum do jogador que não negava seu apreço pelas mesas de bares. O gesto representava muito mais do que uma comemoração ao golmarcado, representava a ideologia de Sócrates, representava sua luta naquilo que acreditava (não era apenas um símbolo dos Black Panthers feito famoso nas Olimpíadas de 1968, o gesto é símbolo das lutas sociais desde antes – é uma saudação comunista por excelência).

De esquerda ou de direita? Sócrates era socialista acima de tudo, o próprio já afirmou em entrevista. Pela última rodada, os jogadores do Corinthians imitaram o gesto ao que os meios de comunicação apenas reduziram ao “gesto de Sócrates”. Escondendo (sabedores ou não da ideologia por trás) a pessoa do jogador, lembrando apenas do jogador. Mas, o jogador, o atleta inclusive como tal se mostrava detentor de um discurso carregado de ideologia comunista.

Seja a favor ou contra as ideias de Sócrates, o que importa é que não se pode esconder, consciente ou inconscientemente, a vida do cidadão.

Se é para homenageá-lo, tenho certeza que muito mais se faria justiça e muito mais ele gostaria se o fizéssemos por meio de suas palavras, lutas e atitudes que eram tão geniais quando algumas de suas jogadas.

Para finalizar, as três partes da entrevista de Sócrates a Juca Kfouri:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Tags:, , , , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.