“Solução Final” disfarçada

30 04 2009

Quando Sérgio Buarque de Holanda diz que o brasileiro é um povo cordial, ele se refere à forma dos brasileiros de agir pelos impulsos do coração e, portanto, fora do contexto de que somos corteses e/ou pacíficos.
Quando uma pessoa age de forma ilegal e os outros ao redor impõem sanções que são, da mesma forma, atos não condizentes com a legalidade, agem pelos impulsos do coração no momento em que ficam indignados com o ato violento praticado pela pessoa, aplicando, assim, uma punição exagerada, linchamentos, espancamentos etc. Às vezes pensa-se em pena de morte como forma de acabar com a criminalidade.
Ainda me pergunto o quão distantes estamos dos nazistas, que são tão criticados por todos.

penademorte1
Tenta-se acabar com o problema acabando com quem o pratica. Tentamos, dessa maneira, acabar com a barbárie criando uma nova barbárie. Muito se diz acerca da pena de morte. Há vários argumentos, sejam eles contra ou a favor deste tipo de punição. Os que são contrários defendem o fato de que se pode chegar a aniquilar inocentes, além de se tirar o direito natural à vida.
Esta corrente defende que um erro não justifica outro. Alguns intelectuais entre juízes, médicos são favoráveis à pena de morte e costumam dizer aos que aquele executado, criminoso, cruel e irrecuperável, não tornará a praticar outro ato nefando como aquele que justificam sua execução. Divergindo desse pensamento podemos dizer que o Estado se igualaria em violência aos criminosos, caso adote esta medida. Além do que, o Estado mostraria sua debilidade na punição dos criminosos, levando à tona a ineficácia em prover a reclusão e a reabilitação do réu. É comum vermos bandidos que saíram da cadeia e continuaram no mundo do crime.
O mais comum é o que acontece nos distritos penitenciários: detentos com um dia ocioso e sem perspectiva de vida no momento pós-detenção. Muitos deles serão discriminados no mercado de trabalho e mais tarde voltam a cometer delitos, de qualquer natureza. Alternativas já foram pensadas e repensadas pela sociedade e pelos poderes que regem o Brasil, podemos citar o mais comentado: a prisão perpétua.
Este tipo de pena pode garantir que o bandido não retorne ao meio social, a menos que esteja totalmente (e comprovadamente) reabilitado. Claro que este indivíduo, em pena perpétua, não pode viver sua vida igual aos que passam, hoje, 20 ou 30 anos (no máximo), uma vida ociosa e sem perspectiva.
O que não podemos mais aceitar é esta escalada da violência, nas mais diversas faixas etárias, que faz com que a população seja, cada vez mais, impulsionada a agir pelo coração e tentar acabar, ela mesma, com o que acontece.

Quantas mortes serão necessárias para que se saiba que já se matou demais?
(Bob Dylan)





Homo sapiens, homo sexualis.

29 04 2009

Vi comentários de que a menina que perdeu a disputa para Miss EUA foi derrotada não pela outra candidata, mas por uma opinião a respeito do casamento homossexual que ela disse ser contra. O assunto estadunidense do dia seguinte foi esse.
Em alguns meios de comunicação brasileiro a questão foi levantada, discutida, esclarecida, discutida novamente e ainda corre. Não que isso seja um assunto atual, muito pelo contrário, há anos a comunidade homossexual tenta uma espécie de inserção social, uma aceitação mesmo.
O mais estranho de tudo é que levantamos a bandeira da igualdade entre sexos, religiões e tudo o mais e esquecemos de “suspender o juízo”.
Quando estamos falando aqui de parâmetros só levantamos o parâmetro cristão, o paradigma cristão. O que sinceramente me deixa muito confuso é um homossexual se considerar cristão. Ética que o reprova totalmente. Isso nos levaria à outros textos aqui já relacionados que retratam a dubiedade da a ética cristã.

homossexualismo
Então, para tratarmos do assunto homossexualismo a última coisa que devemos levantar são padrões ou paradigmas. O homossexualismo não segue qualquer paradigma que seja. Esse tipo de orientação sexual só se segue pelas regras criadas por esse grupo de pessoas (homens e mulheres) que sentem atração pelas pessoas do mesmo sexo. Nada de mais.
O ser humano busca o prazer, busca a sua satisfação sexual, não vai importar com quem quer que seja.
Estamos todos aqui sendo hipócritas ao dizer que somos limpos de preconceitos e dizer que “aceitamos o casamento entre gays” quando na verdade o que nos importa mesmo é nos mostrar pessoas com mente “aberta”, esquecendo que quando falamos sobre isso mesmo estamos sendo os mais preconceituosos. Os próprios homossexuais colocando-se em defesa de casamentos acabam se contradizendo. O casamento como instituição destoa completamente da ética homossexual, basta a união como forma de mostrar à sociedade que se está junto. Aliás, o casamento em si é uma instituição apenas mostra o simbolismo da união representado pela aliança (já parou para se perguntar como você olha para alguém que diz ser casado e não carrega aliança? – opa peraê, estamos saindo do foco. Foco. Foco. Foco).
No momento em que “pedimos” para que não deem em cima de nós “supremos heterossexuais”, porque respeitamos “desde que não venham para cima da gente”, somos os mais homfóbicos possíveis, na medida em que se esquece que para aqueles que se satisfazem com as pessoas do mesmo sexo não ligam para isso. O que importa é jogar a cantada (como o homem “médio” faz com a mulher “honesta” ou vice-versa) se colar, colou.
As orientações sexuais não são para ser discutidas, estão aí para serem aceitas.

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É por esse tipo de discussão imbecil que estamos vendo homens agindo como mulheres e vice-versa (no vestir, falar, enfim no agir), aumentando ainda mais o preconceito contra o homossexualismo. É o que demonstra a atitude de certos homossexuais que para serem “aceitos” por um outro homossexual tem que se vestir como o sexo oposto. Entendeu? Não? Nem eu. Para exemplificar, porque o homem homossexual se veste (age) como mulher para que outro homossexual o aceite?
Aliás, quem disse que o certo mesmo é menina com menino? E quem pode nos garantir que o certo sejam homens com homens e mulheres com mulheres? Ninguém.

P.S.: Acho que a palavra sexualis em si não existe, foi apenas uma idéia para o que título começasse a desenvolver a idéia do texto.


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Toque de recolher: domesticando animais

27 04 2009

Depois de colocar muros no Rio, a safra nazista procura tolher a liberdade dos adolescentes. Está acontecendo em duas cidades do interior do estado de São Paulo uma espécie de “toque de recolher” – só faltou a sirene, trocada pelas luzes dos carros da polícia.
A “intenção” da justiça é a de acabar com a marginalidade e instituir alguma moralidade nessas duas cidades. “Até os 13 anos, o horário para voltar para casa, se estiver sem o acompanhamento dos pais é 20h30. Entre 14 e 15 anos, o adolescente pode ficar sozinho na rua até as 22h. Já aqueles de 16 e 17 anos têm como horário limite 23h.” (Fonte: Globo.com)
Engraçado é essa forma abusiva de tentar acabar com uma liberdade constitucional. Sim, aquela de ir e vir. E os pais, claro, adoraram a medida, já que esses “animaizinhos” não respeitam ninguém mesmo e estão sem rumo na vida. Parece que os pais de hoje não querem mais sair de casa atrás dos seus filhos, parece que só tem tempo para si mesmo, a polícia e a escola que cuidem da formação moral dos seus filhos.

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Já os filhos odiaram a Lei, e como poderia ser diferente? Os hormônios saltando no corpo e vem alguém e diz: “ei garoto, 8 da noite, vamos para casa?”.
O mais interessante é que querem diminuir o consumo de bebida alcoolica por parte dos adolescentes, mas fiscalizar os bares que vendem bebida aos adolescentes, nem pensar; buscar pelos promotores de shows que promovem festas com classificação de 18 anos e vendem seus ingressos a qualquer um, não passa pela cabeça. Aliás, a maioria desses que promovem seus eventos é patrocinada por quem quer mandar a criançada mais cedo para casa.
É mais fácil ir na consequência, na parte mais frágil.
Não fala-se aqui de fragilidade no sentido de fraqueza e sim no sentido de menor possibilidade de defesa. Em uma sociedade como a nossa em que o adolescente só tem obrigações, não cabe a ele discutir o assunto, cabe apenas fazer o dever de casa, pegar os macetes e passar no vestibular.
Talvez isso explique por baixo essa nova “rebeldia sem causa” e “insensatez” por parte do adolescente. Talvez seja por isso o choque que eles querem causar atualmente, principalmente em sua aparência.

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Não podemos querer apenas que se criem leis para trazer uma sociedade com moral mais “elevada”, nós também temos a obrigação de criar condições para uma coletividade menos imbecil.
Os adolescentes são bem imaturos para ficar na ruas após as 23:00, mas tem a capacidade de escolher os governantes de um país. Esses “animaizinhos” com hora marcada para voltar para casa, agora terão que escolher quem irá tolher tolhir sua liberdade.
Nossas autoridades se veem na capacidade de determinar condições para que cada um viva da maneira que o grupo dominante quer que seja. E utilizam-se de declarações forçadas para fundamentar decisões que beiram os fascismos do século passado.
Não se está aqui promovendo uma liberdade incondicional à todos os adolescentes, nem que saiam às ruas provocando badernas, o que se pede é apenas a aplicação da lei como deve ser, apenas a quem desobedecer. Ou seja, ao dono do estabelecimento que vendeu bebida ao menor, ou ao menor que perturbou a paz.
Ajudado pelas pessoas que não querem se ater às suas responsabilidades (nós mesmos), as autoridades, que não querem algo além de suas passagens aéreas, começam a criar regras idiotas com fundamentos arcaicos de que temos que domesticar nossos pequenos “animaizinhos”.





Para além dos portões do Olimpo

25 04 2009

E a discussão no STF hein? Que baixaria.
O templo máximo do Direito Brasileiro acaba de mostrar toda sua fragilidade. Tanto pela mácula que é ter uma pessoa como Gilmar Mendes, não como presidente, mas como membro da Corte. Um home que é sabido utilizar de seus assessores para escrever seus textos.

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Talvez o erro do Min. Joaquim foi o de se exaltar “além da conta” em hora e local não apropriados, mas não houve outra maneira. O Ministro que a Veja chamou de “negro de alma branca”, de “ser tudo o que não parece ser” e de ter mencionado que “o Brasil nunca teve um ministro como ele” (como? negro?) apenas colocou pra fora tudo o que passa na cabeça do brasileiro nesse momento.
Antonio Gramsci estava certo: só vai se conseguir mudar com a tomada de posições. O problema todo é que quem discute essas mazelas que nos assola fica na academia (universidade) e tem que se sustentar com um salário de professor e lutar para que seus livros sejam lançados por editores que querem apenas ganhar dinheiro em cima de manuais e mais manais, que em nada sofisticam o pensamento jurídico.
Devemos também, nós mesmo estudantes do Direito, questionar cada vez mais nossos professores de porque que a Lei tem esse viés tão seletivo. E não apenas estudar para a prova, ou passar em concursos, já que isso vai apenas reproduzir toda essa estrutura que está aí montada.





Vários sotaques para um “Socorro!”

24 04 2009

As chuvas que caem no Brasil, parecem ser uma espécie de revolta da natureza contra a humanindade que usa da sua modernidade para destruí-la. As novas tecnologias pouco ligam para o que está acontecendo. Como diz Al Gore, a preocupação e o aquecimento global são uma verdade inconveniente. Inconvenientes também são aqueles que usam de sua estrutura para criar medidas demagógicas para proteção do meio ambiente, como a construção de muros e/ou um falso reflorestamento.
O que me leva a escrever esse post (com certo atraso, diga-se de passagem) é que mais uma vez caíram chuvas no estado e deixaram mais de três mil desabrigados. Lembrei da última vez em que houve a comoção em relação à vítimas da cheia: contas foram abertas para depósitos de quem quisesse ajudar, doações eram pedidas aos montes em todos os telejornais, jornais, internet etc. Nós tínhamos que ajudar porque só quem ajuda o outro é que vai pro céu, só quem ajuda o outro é bom.

trizidela-do-vale
As chuvas estão assolando o Maranhão nos últimos dias. Os municípios de Pedreiras e Trizidela do Vale estão debaixo d’água e pessoas perderam suas casas e coisas. E agora? Quem pediu uma ajuda? Quem abriu uma conta para ajudar? Quem pediu nos sites ou jornais alguma doação?
E não se trata aqui de algo imediato, de algo que acontece agora. As chuvas são só uma das consequências de má política e preconceito estabelecidos no Nordeste. Há anos municípios e regiões são afetadas pela seca e ninguém se preocupou em ajudar. E no entanto quando uma região rica cai em desgraça todos correram, inclusive os nordestinos “cabeça-chata” se prestaram a ajudar as famílias desabrigadas.

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Pode parecer um ciuminho besta, mas é bem mais um espécie de revolta por essa segregação regional que perdura no Brasil. Não se pretende promover um conflito armado entre Norte e Sul. O que se questiona aqui é por que alguns estados sempre recebem mais ajuda e compreensão do resto do Brasil, do que uma região inteira que já sofre há anos com isso. Seria isso uma espécie de conformismo? “Já sofremos há tanto tempo, por que não sofre mais um pouco?”.
O Nordeste conseguiu apesar disso andar com as próprias pernas. Tentando “exportar” dentro do Brasil seus pacotes turísticos. Pode ser que em um universo de nove estados apenas três ou quatro se destacarem seja pouco, mas, se observados as políticas malfadadas e de oligarquias, é de se destacar esse número.
O Nordeste precisa de muito (ah, se precisa), mas temos muito a oferecer. O Nordeste já tem cabeças pensantes capazes de mudar a realidade, destruir paradigmas e oligarquias. Mas precisa que o resto do Brasil se una para ajudar, seja material ou intelectualmente.
Afinal, somos um Estado Federado e não Federalizações isoladas.
Estamos todos no mesmo barco, e ao ver pelas chuvas vamos precisar mesmo de um para sair de casa, ou chegar (se é que vai haver uma).





Sobre muros e outros nazismos

23 04 2009

E vão construir um muro ao redor das favelas, diz-se que para conter o aumento e acabar com a degradação da Mata Atlântica. Os muros terão três metros de altura e o “empreendimento” custará a bagatela de R$40 milhões aos cofres públicos.
Nessas horas eu me pergunto: quão distantes estamos dos nazistas?

Muro na em volta da favela Dona Marta

Muro na em volta da favela Dona Marta

Essa moralidade que se ergue (junto com o muro) mostra cada vez mais nossa animalidade, expressão que nem sei pode-se usar, já que os animais parecem, esses sim, mais racionais que os tão poderosos humanos.
O pior é ver editoriais de revistas “imparciais” dando guarida a esse tipo de atitude. IstoÉ inadmissível, Veja bem como o Brasil anda para pensarmos em atitudes nazistas. Não neonazistas, nazistas mesmo!
O Brasil parece começar a reviver uma espécie de apartheid entre ricos e pobres. A moralidade é que deve prevalecer e o outro que se dane.
Num país de imensa desigualdade social, e em que os interesses de poucos se sobrepõem a todos, sem qualquer tipo de controle, nossa moralidade chega a ser egoísta a tal ponto de querermos uma espécie de Solução Final para aqueles marginalizados. “Bandido bom é bandido morto”, “Tá na favela, não presta”, “Roubou tem que levar uma surra” e outras tautologias absurdas não nos colocam tão distantes daqueles que mataram, com a desculpa de purificar a raça humana. É isso que queremos em relação aos nossos pobres? Eliminá-los para que a raça humana seja purificada? Já que só nós pagamos nossos impostos e somos cidadãos “de bem”.
Claro que a preocupação ambiental deve ter seu lugar, todos precisamos do meio ambiente saudável, mas daí a vir com propostas mesquinhas, absurdas e mentirosas de controle ambiental, faça-me o favor.
A questão está sendo amplamente discutida apenas no Rio de Janeiro, o que se dá obviedade pelo problema de favelas e tráfico de armas e drogas, mas devemos observar que esse é um assunto nacional. Uma vez aberta a brecha, a boiada vai passar e logo logo veremos o povo sendo transportado a pé de um lugar para outro, acorrentados pelo pescoço.
Nossa moralidade anda desvirtuando e invertendo todos os valores, até o próprio cristianismo anda sendo desvirtuado (se é que não já foi desde Paulo). Que atitude cristã pedir a surra e/ou a morte do outro!
Defendem que o muro vai virar modelo para o resto do Brasil, sinceramente modelo de nazismo eu não quero. Já basta um. O governo fluminense esquece que o principal motivo de haver problemas como a criminalidade é sociológico, é a nossa imensa desigualde de recursos.
Não se está fazendo aqui uma ode ao roubo ou outras condutas tipificadas, apenas uma crítica à essa política criminal que quer atingir consequências. Se as causas não forem combatidas, se não diminuir o fosso social essa criminalidade só aumentará .
O muro só me traz a lembrança de Berlim e Gaza.
Campos de concentração.
Aliás, modelo mesmo é o da cidade que regulamenta o transporte de vans que serve às favela e onde existe uma política de urbanização, na qual há construção não de muros, mas de prédios, e onde há fornecimento decente de água, luz, esgoto, transporte, escola, praça, centro de saúde.
Isto sim é que é revolução.
Não ao nazismo!
E feliz dia do Livro!