A máscara, o ofício e o verdugo

4 11 2009

Apenas seus olhos eram vistos através da máscara. Começou quando perguntaram se estava fazendo algo na vida e ele disse que não. Um homem com este corpalhão deve amedontrar as pessoas. Suas feições nem eram assim tão assustadoras, então porque tinha que usar máscara?

Percebeu logo no primeiro dia de ofício. Matar pessoas, tirar vidas deve ser mesmo algo ruim para qualquer um, não podia ser reconhecido na rua, pois um parente de um defunto poderia tentar alguma emboscada ou luta corpo a corpo, apesar de todo o seu porte físico.

No entanto, pensava o carrasco, as pessoas que ele levava ao encontro da morte eram hereges, pulhas malditos que desonraram a Coroa e o poder de Deus. Não poderiam viver mais nesse mundo se a ele não se coadunassem.

Mas nem gostavam quando prendiam alguém. A maioria das vezes ele mesmo percebia que aquele indivíduo nem tinha nada a declarar ou era apenas mais um mendigo ou ambulante que passava despercebido. Os nobres não passavam mais de um mês sem chamá-lo para sua atividade, ganhava aquela moedinha de ouro mensal e isso era sua garantia de uma boa compra na feira do vilarejo ou da sua noite na taverna, com as mulheres mais fogosas. Mulheres que somente conseguia depois que pagasse algumas cervejas e 10 a 11 pence.

Mais uma vez o chamaram para trabalhar. A atividade era ou puxar uma alavanca para que o chão se abrisse sob os pés do condenado e ele caísse com uma corda presa ao pescoço ou erguer e descer a lâmina afiada de uma espada bem no pescoço daquele bastardo inglório. Não precisava daquelas inúmeras vestes que os nobres usavam nessas grandes ocasiões, às vezes nem a parte de cima usava, apenas quando o frio se fazia presente. Mas a máscara deveria ser usada sempre. Jamais esquecida. Era a primeira peça que colocava.

Nos dias em que era chamado passava horas a caminhar pela sua cabana, bebia vinho e um estoque de cerveja que guardava, justamente para os dias em que fosse chamado. Ele gostava, mas não apreciava. Gostava pelo ganho que teria no mês, não apreciava porque podia ser bem melhor que aquilo e poderia estar do outro lado da floresta apenas tomando cerveja com outras pessoas e conversando sobre como é bom uma música ao redor de uma fogueira em uma noite fria.

Essas memórias e fantasias sempre vinham à mente quando ele tinha que trabalhar. A máscara difucltava um pouco a respiração e cheva até mesmo a suar, mas ele não temia nada. O poder de Deus estava do seu lado e isso faria com seu trabalho fosse reconhecido quando chegasse ao céu. Estava colaborando para disseminar o Mal do mundo, estava apoiando a causa do Rei. Causa esta nobre de espírito e de amor a Deus.

A palavra foi dada e a ele restou apenas cortar a corda daquele novo aparelho. Não precisava mais erguer e baixar a espada, bastava puxar ou cortar uma corda presa e uma lâmina descia ferozmente ao pescoço daquela mulher possuída pelo demônio, batendo as pernas no chão, já que tinha as mãos presas a um fecho de madeira. A lâmina desceu e a cabeça da mulher caiu em um cesto de vime.

Lá atrás vinham um negro, acusado de roubar uma galinha de um nobre cavaleiro e um homem que desrespeitou a lei de Deus e deitou-se com o vizinho na mesma cama.

A tarde traria muito trabalho e isto lhe daria mais que apenas uma moeda de ouro.

E nem precisava mais levantar aquela pesada espada, bastava desenrolar o nó do novo instrumento.





A morte do artista e os artistas da morte

3 11 2009

Assistindo ao filme “This is it” (Kenny Ortega, 2009), aquele que mostra o Michael Jackson em sua preparação para a turnê que faria na Inglaterra, eu me peguei pensando em como as pessoas tendem a imortalizar os seus ídolos. No mais, o filme é um “making of” megalomaníaco, bem ao estilo do Rei do Pop, fácil fácil um extra em outro disco quando saísse o DVD do show (ou vocês acham que isso não iria acontecer?). Não é ruim, muito pelo contrário, vale a pena o ingresso.

Mas, o que eu pensava era em como a morte de um megastar pode gerar rios de dinheiro para as pessoas que montam todo esse circo. Todos lucram com a morte, menos o morto – que daria todo o seu dinheiro para descansar em paz.

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A não morte preparada pela mídia e pelos oportunistas aumenta o ganho e revitaliza nas pessoas a ideia de que o artista não morreu, pois está vivo em nossas memórias, pois ele lutou para conseguir aquilo que sonhava e toda essa lenga-lenga do “lute por seus sonhos”. No caso de MJ não que ele não quisesse o show, aliás eu penso (e até falei pra JU) que ele iria fazer aqueles shows porque ele tinha crescido. A imagem infantil naquele momento era promovida mesmo só pela mídia, pois nas filmagens era fácil ver sua dedicação para os seus últimos shows. Era um artista profissional querendo mostrar seu trabalho e não uma mera celebridade querendo dinheiro para pagar as contas.

Não quero comentar sobre o filme, que nem status de documentário, drama ou comédia poderia ganhar – como dito acima é mais um grande “making of” da turnê. O que eu queria mesmo era refletir sobre essa necessidade de se manter a memória viva de alguém, por meio de lucrativos artifícios que mudam completamente a figura do artista.

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Cena do filme O Sétimo Selo (Det sjunde inseglet) de Ingmar Bergman, um diálogo com a morte

Todos falavam mal de Michael Jackson, ou que Elvis era um drogado, assim como Marilyn era uma prostituta, no entanto são imortalizdos como seres divinos e que devem ter sua vida seguida e adorada, pois eles venceram. Nós perdemos. Perdemos nossa oportunidade de viver como queremos, pois a nossa vida deve seguir o caminho de quem mais se dá bem na vida: celebridades. E aí surge todo tipo de coisa desagradável que você é obrigado a ver na TV, sob o rótulo de artista que venceu na vida, quando o muito que faz é balançar a bunda e tirar a roupa.

A morte do artista leva à morte do ser humano ordinário, que ganha mais um deus para reverenciar. seja pelo filme das suas últimas horas ou pela cera da Madame Tussaud haverá sempre uma cruz ou símbolo que move sua fé.

Passou despercebido:

1) A garota vítima do falso moralismo da Uniban vai voltar às aulas. MEDO.

2) No Espírito Santo, os habitantes de uma pequena cidade entraram em confronto com a polícia depois que um policial matou uma criança de 11 anos.

3) Alguém entendeu o texto do FHC no jornal Zero Hora? Para mim foi uma tentativa frustrada de dizer: “Não vote na Dilma”.





Dica de música

31 10 2009

Artista: Tiamat
Música: Meliae
Disco: Amanethes (2008)

Ouça aqui

You ask for forgiveness but your lips they are still lying
You might be forgiven but the angels are still crying
But you’re alive so please try one more time

And all dirt you throw so deep down in that well
Will be there waiting for you the day you entered Hell
But you’re alive so please try one more time

You have walked these roads alone, you’ve spent you time with faith
Without any answers found and now time is running late
But you’re alive so please try one more time

You might think I’m not any better and you’d ask me what I would do
But sincerely love you still and these thing they are part of you
But you’re alive so please try one more time

We have left the bridges burning for the sake of trying
And as long as you are happy I don’t care if our love is dying
But you’re alive so please try one more time





Operário, trabalhador, funcionário, colaborador

29 10 2009

Saindo de uma produção desregrada o modo de produção capitalista começa a racionalizar o seu processo de produtividade. As máquinas, já com sua parcela no mercado de trabalho, são utilizadas cada vez mais. Taylor percebe que a união trabalhador/máquina pode ser muito mais benéfica se fomentada a aplicabilidade do seu uso. Para isso, aciona supervisores que faziam as vezes de “cronômetro” dos funcionários, evitando que estes fizessem movimentos muito longos que pudessem acarretar perda de tempo na produção. Ford vai mais além e implanta na vida do trabalhador, a esteira. Em vez de uma pessoa, a própria máquina condicionaria o trabalhador.

O Taylorismo e o Fordismo, por serem contemporâneos formam um binômio e poucas vezes são dissociados.

A ideia era: produzir mais, para que houvesse mais consumo. Para isso havia uma parcelização do trabalho. Cada trabalhador seria responsável pela parte que lhe cabia, sem se preocupar tanto com a tarefa do companheiro. Tempos modernos

Para consolidar este modelo o Estado atuava legitimando fortes adendos salariais, era o “welfare state” (estado do bem-estar social) que dava condições para que o trabalhador consumisse aquela produção massiva, nascia o “mass worker” e o “american way of life” o estilo de vida americano, propagado pela ideia de consumo em massa.

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No entanto, o trabalahdor sofria fortes e sérios problemas com sua saúde, inclusive problemas mentais. O maior exponte que mostra a condição do trabalhador condicionado pela máquina é o filme “Tempos Modernos” no qual Charles Chaplin interpreta um operário que sofre de problemas por não conseguir se desvencilhar do seu afazer. Era nisso que o funcionário se transformava: mera extensão da máquina.

Para tentar aperfeiçoar este modelo o capitalismo busca intelectualizar a força do trabalho, mas quem não estava inserido, também buscava o conhecimento, principalmente na ideia soviética do socialismo. Os sindicatos, já institucionalzados, não tinham mais compromisso com o trabalhador e sim com o Estado, mantenedor do “status quo”. Em fins da década de 1960 e início dos anos 70 eclodiram as revoluções sociais, com seu ápice no “maio de 68″. Buscava-se a inserção dos indivíduos no mercado de trabalho, era a busca pelo pleno emprego.

Fundado no ideal social soviético a busca por era a inserção dos setores da sociedade (mulheres, homossexuais, etc). A crise do capitalismo era estrutural e via-se que o modelo implantado não funcionaria, pois já não havia quem consumisse toda aquela produção em massa.

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No Japão desenvolvia-se um novo processo de produção, que busva “enxugar” a empresa, diminuindo os gastos com pessoal e matéria prima, bem como a diminuição os gastos com pessoal e matéria prima, bem como a diminuição de energia, provocada principalmente pela crise petrolífera. O Toyotismo era de certa forma mais “intelectual” que seu precedente, pois nesse modelo da fábrica japonesa o trabalhador sabia e conhecia todo o processo de trabalho, o que poderia gerar até uma insatisfação pelo excesso, algo diminuído pela ideia de colaboração do funcionário.

Havia formas de que o trabalhador esquecesse de se aliar ao companheiro (cooptação da subjetividade), pois a empresa lhe dava a opção de colaborar com ela (por meio de sugestões, em caixas ou quadros), sai o emrpegado e entra o colaborador. O Toyotismo larga a produção em massa para criar o modelo do “just in time” em que só será produzido o que é demandado, mas com um padrão de controle de qualidade que diminui o valor de uso do produto, que deve ser trocado de tempo em tempo. Mais custos são cortados com a terceirização dos serviços, na qual contrata-se empresas a baixo custo que pagam menos ainda a seus funcionários.

Passou despercebido:

1) O Flamengo. Passou despercebido mesmo. O Barueri nem se deu conta.

2) Pelo árbitro do jogo Botafogo x Náutico, um gol mal anulado e um pênalti não marcado a favor do Náutico. Os botafoguenses parecem estar se vingando.

3) 1915, versão olhinho puxado.

4) Não sei porque colocaram o rubinho na lista dos pilotos mais azarados da F1.

5) A cena mais cara da história da TV.

6) Subway To Sally, nunca o alemão soou tão suave aos ouvidos.





O Código Omã

28 10 2009

A Seleção Brasileira de futebol vai enfrentar no dia 17 de novembro a Seleção de Omã. Sim, este é o país. COmecei a divagar (bem devagar mesmo) sobre onde seria o que haveria em Omã. Confesso que futebol era a última coisa que eu esperava que Omã tivesse, apesar de saber que até na Papua Nova Guiné existe futebol. E se em Papua Nova Guiné existe, em qualquer lugar pode existir (ou não).

Bem a verdade é que sei pouco sobre Omã. Talvez quando criança conhecesse a bandeira ou sabia até a capital (cujo nome é Mascate), naquelas intenções que nossos queridos pais tem de nos mostrar inteligentes para todo mundo:

“Olha como ele é inteligente, sabe a capital de Omã e se você pedir para ele apontar a bandeira de Omã ele aponta, não é o máximo?”

“Estupendo, devemos levar esse garoto no Gugu ou no Superpop. Melhor, na Sônia Abrão”.

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Bandeira do Sultanato de Omã

Sinceramente, Omã não me parece um local que desperte os sentimentos mais primitivos de um turista. Você não encontra pacotes turísticos nas companhias para passar sete dias em Omã. E olha que Omã é grande, deve ser o octocentésimo em área. Omã fica localizado em área litoral e faz fronteira com Emirados Árabes, Arábia Saudita e Iêmen (não aquele Iêmen das meninas, é o país mesmo. Ah essa lingua portuguesa e seus nomes de países. Língua hã? Iêmen hã?, deixa pra lá). Pegando uma embarcação dá para ir até o Irã. Aliás, “dá pra ir nadando”.

Omã em um nome engraçado, vai dizer que não. Em Portugal chamam Omão.
Se você acha que o Acre é que não existe, deveria saber da (não) existência de Omã. Talvez o Acre e Omã sejam entrada e saída da mesma fenda no espaço-tempo que o pessoal de Lost até hoje não se tocou. A roda da Dharma deve estar na região perto do Iêmen.

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Localização geográfica do Grande e Esplendoroso Sultanato de Omã... olha ali o Iêmen escondido!

Omã é governado por um Sultão. Nada de estranho nesses países daquela área. Mas, tem muito em comum com o nosso querido Brasil. Sua moeda, por exemplo, chama-se Rial. A dinastia Al Said, que é a dinastia do Sultão Qaboos bin Said Al Said (explica-se o “Said Al Said”: É Said da dinastia Said), que governa desde 1970, está no poder há mais de 250 anos, em matéria de tempo muito parecido com nosso honorável bandido.

Omã é o típico país árabe que é doido para mostrar suas riquezas a despeito do que acontece dentro do seu território (mais uma semelhança com um país muito conhecido nosso).

Um ótimo eufemismo para se mandar “tomar no cu” seria, “Ah, vai pra Omã”.
Alguém concorreria a uma passagem de ida e volta com tudo pago para Omã? Conhecer as belezas do lugar e ir a um show de música popular Omanesca/Omanema/Omanenha/Omaísta/Omana/Omêia?

Quem nasce em Omã é … ? Malditos adjetivos pátrios.

O certo é que não queremos que a Seleção passe por sufoco como foi contra a Islândia, Estônia, Honduras, Andorra, Catalunha e outras potências do futebol mundial.

Passou despercebido:

1) O Hino de Omã

2) Grande acervo de fotos de Omã

3) Omã é um ótimo nome para seu filho ou filha.





Crise

27 10 2009

Os capangas de Gilmar, as constantes denúncias de vendas de sentenças e, por último, a pequena animosidade do TJ do Maranhão na última semana trouxe novamente à tona um problema que já é discutido há tempos: a crise do Poder Judiciário. E a pergunta não quer calar (e parece que poucos querem responder): O Poder Judiciário está em crise? Assim, crise mesmo e não essas coisas de time de futebol que perdem três partidas seguidas e a torcida começa a reclamar.

Aliás, porque os “torcedores” não criticam e vão para a porta do Tribunal como vão para a porta dos seus clubes reclamar de um ou outro jogador? Não me venham com desculpa de ter que trabalhar, porque a marioria das manifestações de torcidas é no horário de trabalho.

Em uma comaparação bem esdrúxula um Tribunal é como um time de futebol. Você tem lá uma turma que precisa trabalhar unida, com cada um na sua posição para que o time consiga os três pontos. E no Judiciário os três pontos parecem ser a celeridade processual, algo tão criticado pelo próprio Poder Judiciário, tanto que criou um Conselho para poder “vigiar” a sua própria atuação. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) é como o técnico que diz quem deve fazer o que e em qual posição.

justica

Chegou ao cúmulo, inclusive, de alterar por resolução uma Lei que estipula horário de trabalho.

Não é difícil observarmos várias tentativas frustradas de moralização do Judiciário. É casasmento comunitário pra cá, é meta criada pelo CNJ pra lá. E o povo que se dane se o processo vai ser analisado como um estudante de 10 anos que tenta ler Crime e Castigo.

A justiça lenta e burocrática, não atende às expectativas e o único fator que impede a celeridade processual é justamente falta de gente capacitada para os trabalhos – tanto magistrados quanto funcionários. Pelo último cálculo existem cerca de cinco mil juízes. Cinco mil, para um país que hoje beira a casa dos duzentos milhões de habitantes.

juizesQuem sofre com essa falta de contigente, nós sabemos. Processos que não tem “interesse”, quando as partes não tem muito em jogo e na esfera criminal, presos que já há muito cumpriram suas penas ainda continuam encarcerados. Um claro reflexo do desleixo com o qual o ser humano é tratado pelos homens togados.

Não que todos sejam assim. Claro que não. E convenhamos que os responsáveis fazem seu trabalho muito bem. Mas os juízes irresponsáveis fazem com que todo um trabalho árduo seja desmerecido. E quando falo juízes, falo em todos os magistrados. E não sei porque essa imbecilidade de se chamar de outro nome só porque está em um Tribunal, é juiz do mesmo jeito e julga do mesmo jeito.

A saída monetária e a busca de trabalho pelo poder público pode gerar tais acomodações, pois muitos esquecem justamente que o serviço além de público é para o público…

… e vai ver nem é crise é só mais um dos problemas estruturais que nosso país tem. Assim como é no Legislativo e no Executivo.

Passou despercebido

1) Quer ouvir como foi a baixaria no TJ/MA? Clique aqui.

2) Entre tapas e beijos.

3) O Le Mond e a PM do Rio de Janeiro.