Apenas seus olhos eram vistos através da máscara. Começou quando perguntaram se estava fazendo algo na vida e ele disse que não. Um homem com este corpalhão deve amedontrar as pessoas. Suas feições nem eram assim tão assustadoras, então porque tinha que usar máscara?
Percebeu logo no primeiro dia de ofício. Matar pessoas, tirar vidas deve ser mesmo algo ruim para qualquer um, não podia ser reconhecido na rua, pois um parente de um defunto poderia tentar alguma emboscada ou luta corpo a corpo, apesar de todo o seu porte físico.
No entanto, pensava o carrasco, as pessoas que ele levava ao encontro da morte eram hereges, pulhas malditos que desonraram a Coroa e o poder de Deus. Não poderiam viver mais nesse mundo se a ele não se coadunassem.
Mas nem gostavam quando prendiam alguém. A maioria das vezes ele mesmo percebia que aquele indivíduo nem tinha nada a declarar ou era apenas mais um mendigo ou ambulante que passava despercebido. Os nobres não passavam mais de um mês sem chamá-lo para sua atividade, ganhava aquela moedinha de ouro mensal e isso era sua garantia de uma boa compra na feira do vilarejo ou da sua noite na taverna, com as mulheres mais fogosas. Mulheres que somente conseguia depois que pagasse algumas cervejas e 10 a 11 pence.
Mais uma vez o chamaram para trabalhar. A atividade era ou puxar uma alavanca para que o chão se abrisse sob os pés do condenado e ele caísse com uma corda presa ao pescoço ou erguer e descer a lâmina afiada de uma espada bem no pescoço daquele bastardo inglório. Não precisava daquelas inúmeras vestes que os nobres usavam nessas grandes ocasiões, às vezes nem a parte de cima usava, apenas quando o frio se fazia presente. Mas a máscara deveria ser usada sempre. Jamais esquecida. Era a primeira peça que colocava.
Nos dias em que era chamado passava horas a caminhar pela sua cabana, bebia vinho e um estoque de cerveja que guardava, justamente para os dias em que fosse chamado. Ele gostava, mas não apreciava. Gostava pelo ganho que teria no mês, não apreciava porque podia ser bem melhor que aquilo e poderia estar do outro lado da floresta apenas tomando cerveja com outras pessoas e conversando sobre como é bom uma música ao redor de uma fogueira em uma noite fria.
Essas memórias e fantasias sempre vinham à mente quando ele tinha que trabalhar. A máscara difucltava um pouco a respiração e cheva até mesmo a suar, mas ele não temia nada. O poder de Deus estava do seu lado e isso faria com seu trabalho fosse reconhecido quando chegasse ao céu. Estava colaborando para disseminar o Mal do mundo, estava apoiando a causa do Rei. Causa esta nobre de espírito e de amor a Deus.
A palavra foi dada e a ele restou apenas cortar a corda daquele novo aparelho. Não precisava mais erguer e baixar a espada, bastava puxar ou cortar uma corda presa e uma lâmina descia ferozmente ao pescoço daquela mulher possuída pelo demônio, batendo as pernas no chão, já que tinha as mãos presas a um fecho de madeira. A lâmina desceu e a cabeça da mulher caiu em um cesto de vime.
Lá atrás vinham um negro, acusado de roubar uma galinha de um nobre cavaleiro e um homem que desrespeitou a lei de Deus e deitou-se com o vizinho na mesma cama.
A tarde traria muito trabalho e isto lhe daria mais que apenas uma moeda de ouro.
E nem precisava mais levantar aquela pesada espada, bastava desenrolar o nó do novo instrumento.








Quem sofre com essa falta de contigente, nós sabemos. Processos que não tem “interesse”, quando as partes não tem muito em jogo e na esfera criminal, presos que já há muito cumpriram suas penas ainda continuam encarcerados. Um claro reflexo do desleixo com o qual o ser humano é tratado pelos homens togados.












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